por Clara Machado

Documentário: FILHOS da HUTUKARA:

A convivência com os yanomami dá a Ana Mendina a seiva de sua arte. Ela sabe, tanto em suas pinturas como nesse documentário, capturar em cores, a vida da cultura indígena, transmitindo uma espécie de comunhão com a natureza, aprendida com os nativos.

O documentário é muito especial, artístico, enquanto linguagem cinematográfica; as imagens falam por si, a narrativa está na imagem, cujo resumo é a alegria na integração com a natureza.

Oswald de Andrade já dizia: "a alegria é a prova dos nove, no matriarcado de Pindorama."

Foi a primeira ideia que me veio à mente, para traduzir em palavras o documentário: ALEGRIA! É essa a essência da vida.

Ana mostra muito bem esse sentimento já na primeira imagem da criança correndo, feliz. Também, por meio de diversas formas, tendo a natureza como cenário exuberante, as árvores, o sol, as borboletas amarelas, as águas límpidas, a representação das crianças surge nas mais variadas manifestações de felicidade. Um fruir constante de alegria nas brincadeiras, no contato com a água, no material de desenho, na rede, no sorriso capturado nas "fotos".

Interessante é a escolha de uma árvore majestosa, pintada comunitariamente, com mandalas, que parece iconizar um totem, marcada por cores vibrantes, unindo natureza e cultura de forma lúdica.

Um marco de um Brasil quase fictício.

A preparação para as festas, a dança, o trabalho com a mandioca, branquinha, tudo se transforma em símbolo da cultura indígena a ser preservada.

A alegria pura é representada sem a contaminação de conceitos utilitários, o

fluir constante da vida em perfeita comunicação com a natureza. 

A criança como figura central, os filhos da hutucara; os adultos representados mais como complemento do quadro.

A trilha sonora em perfeita comunhão com as imagens dá ainda mais expressão ao documentário, onde a natureza é a peça fundamental: a natureza humana, integrada à vegetal e à animal. O macaquinho é uma  prova disso, ele abraça carinhosamente a cineasta, como se reconhecesse nessa grande aliada, uma mulher especial,  Ana Mendina.

Ela demonstra em seu trabalho uma direção sensível, técnica, perfeitamente integrada a esse meio, alguém que aprendeu no convívio com os indígenas um mundo extremamente diverso do nosso, alguém que com suas imagens singulares nos transmitiu a chave da vida:

HUTUCARA! A terra céu, fonte inesgotável de vida. A integração do homem com a natureza. A criança feliz, com sua alegria sem a contaminação de uma  "civilização" utilitária com todos seus desdobramentos perversos.

Obrigada por esse olhar tão sensível, por esse quadro estranho às nossas experiências que nos transmite alguma esperança de felicidade.

Clara Machado

(doutora em Comunicação e Semiótica, pela PUC, São Paulo)

 

 

Teaser do Filme Filhos da Hutukara

Momento feliz na Floresta Yanomami 2012
Direção Ana Mendina

Créditos

Filhos da Hutukara

Direção: Ana Lucia Mendina

O filme foi realizado pela artista plástica roraimense Ana Mendina, durante os 20 dias que permaneceu na região do Demini, na aldeia Watoriki, na Terra Indígena Yanomami no ano de 2012. Ana Mendina registrou o cotidiano das crianças e mulheres, sua força, seus sorrisos, tentando assim demonstrar a energia que emana dos Yanomami, sua fonte inesgotável de vida, a Hutukara.

 

Filhos da Hutukara


Gênero: Documentário Experimental

Tempo de duração: 10 minutos 30 segundos


Formato Original: Digital

Ano de realização: 2013


Direção: Ana Lucia Mendina


Direção de Fotografia: Ana Lucia Mendina


Trilha Sonora Original: Cláudio Lavôr


Montagem: Cláudio Lavôr


Direção de Arte: Ana Lucia Mendina

Som: Cláudio Lavôr


Assistente: Lucy Ferraz


Produtor Executivo: Cláudio Lavôr (Biosphere Records)

Produção: HAY Associação Yanomami & Biosphere Records

Realização: Biosphere Records

 

 

 

Prêmios e Festivais

FICCA - FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DO CAETÉ

Cinema - Bragança, PA

 

O Festival Internacional de Cinema do Caeté – FICCA, acontece anualmente no mês de Dezembro, no município de Bragança, Região Norte, Amazônia, Pará, mediante mostras competitivas e paralelas de filmes de longa, média e curta-metragens.

 

 Melhor Trilha Sonora: Cláudio Lavôr (Filme: Filhos da Hutukara, de Ana Lúcia Mendina – RR)

 

Filhos da Hutukara (Direção Ana Lúcia Mendina / Produção Biosphere Records). Recebeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora no Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA) em 2014.